quarta-feira, 4 de abril de 2012

Depoimento de Cláudio Antônio de Almeida

Pediram-me para escrever alguma coisa no Blog do Centenário de Nascimento de meu pai, MANOEL DE ALMEIDA, mas constato agora, não ter entendido exatamente o espírito da coisa. Também foi a primeira vez que li e escrevi para um Blog. Acho que extrapolei. Pelo que vejo, o Blog tem que ser mais enxuto. Esse vai ser o último e, se possível, vou tentar ser bastante sintético, grande esforço, mas vou continuar escrevendo, pra mim mesmo, algumas coisas que guardei nesses meus já longos anos de vida e que chegou a hora de colocar pra fora.  Vamos lá, esse é o


FELIZ ANIVERSÁRIO.

Fazer aniversário, para homem ou para mulher, depois dos quarenta anos é uma lástima. Dizem que, depois que entramos nos ENTA, a coisa pega. Só acaba, quando chega nos NOVENTA e depois, vêm os cem anos, coisa que é pra poucos e, pelo que tenho visto, não vale muita coisa, só para os laboratórios de medicamentos geriátricos e fabricas de cadeiras de roda. Mas, irremediavelmente, sempre chega o seu dia de aniversário e você tem que agüentar os gracejos daquelas pessoas totalmente desprovidas de senso de humor, mas que se sentem na obrigação de dar aqueles toques desagradáveis, para que você tenha mais ódio dos anos que esta fazendo. Ah, como um dia desejei fazer dezesseis anos para assistir o filme: “Cavaleiros da Távola Redonda”. Puxa, Robert Taylor. Hoje, nem sei se existe o DVD. Passava no cine Metrópole, em Belo Horizonte. Hoje deve ser um espaço evangélico, como a maioria dos cinemas de lá.
E o aniversariante do dia era o meu pai, MANOEL JOSÉ DE ALMEIDA. Sim, e nem eram quarenta anos, mas SESSETA longos anos vividos. Para nós, de uma geração sem pressa, era uma eternidade. Lembro-me dos meus avós, como eram velhinhos. E quando vejo no verso das fotos deles, as anotações de que tinham menos de sessenta anos, me assusto. Incrível, mas é verdade. Eles eram velhos com quarenta anos. Meus tios me mandavam tomar a benção deles. Que coisa terrível. A gente tinha que beijar aquelas mãos, muitas vezes mal lavadas, mas em sinal de respeito. Mas que respeito terrível. Meus sobrinhos sempre me chamaram de Cláudio e meus filhos de você. Mas o senhor naquela época era imperativo, impositivo e irritante. A gente não discutia uma ordem, bastava somente um olhar e agente colocava o rabo entre as pernas e saia de fininho para o quarto. Hoje se eu for dar uma olhada para um neto, ele talvez dê uma piscada pra mim, pra retribuir o imaginado carinho. É, o tempo passou e muito rapidamente. Um amigo uma vez disse que deu uns tapas no filho porque ele estava no quintal e chovia. Gritou várias vezes para o menino sair do quintal e o menino nada. Foi lá e deu uns tabefes no guri. E este, meio sem entender nadica de nada, pergunta ao pai: o que é quintal?    
Mas o trauma do meu pai veio aos sessenta anos. O meu veio aos quarenta. E bateu pesado demais. Não sei, passou tudo o que havia de pior, impotência, incontinências diversas, insegurança, solidão, etc. Os psicólogos é que faturam alto nesses momentos. Surgem teorias de todas as formas e fica difícil adequar uma delas ao nosso perfil, mas tem que se enquadrar, nem que seja por fórceps. Eu estava separado há pouco tempo e imaginava, como todos os separados, que iria transar todas as mulheres do mundo. Mal sabíamos que, o tempo em que ficamos fora do mercado, a fila andou, e como andou, a passos muito largos, deixando-nos muito para trás, não conseguindo mais entender a linguagem das pessoas, os hábitos, os desejos, o jogo da paquera O mundo mudara, desde o meu casamento, e olha que não fiquei casado por muito tempo. Nesse momento, os amigos que não querem dar palpite, mas interferindo sempre, indicam um psicólogo pra gente. E nunca mais conseguimos nos desligar dessa turma. Quando Wood Alley dizia que fazia análise há 26 anos, eu achava um absurdo. E a minha geração toda passou por ela. São quarenta anos de psicanálise. Os entendidos, indicam pra gente começar devagarzinho, sem precipitação, fazendo uma biodança, depois vem a psicodança. Aí sofisticam e surge a análise transacional. É tudo de bom pra quem não entende de nada e com certeza, vai sair de lá sabendo menos ainda.  Vem a análise individual, mas logo em seguida, somos promovidos a uma análise de grupo. Lá conhecemos gente que está muito pior do que você e se diz de bem com a vida. Quase todos são separados e os que não o são, dificilmente saem dali casados. Aí vem seu terapeuta e indica um acupunturista, uma massagista dos pés ou um curso especial, desses que prometem tudo, transformar sua vida, enxergar-se por fora e, principalmente, mexer no seu ego e até no super-ego. Acho que nada melhor do que um decorador para isso, arrumar os interiores de minha vida. Mas muitos teimam em manter um psicólogo de plantão. Um dia vão acabar no Tibet e não conseguirão resolver seus próprios problemas. Quando vi na China um monge budista teclando um computador, pensei. – faliram todos os valores espirituais budistas. E tomara que minha psicóloga não leia isso. O homem e suas circunstâncias. Mas isso foi que gerou a expectativa em atingir os quarenta anos. Agora, imagino os sessenta anos de meu pai, que tormento terrível ele viveu.
Eu o via cabisbaixo, triste mesmo. E perguntei-lhe o que era. E ele falou-me como numa confidência que se faz na hora da morte e pra não contar pra ninguém: Amanhã faço 60 anos. A boca dele ficou tão cheia de anos que achei que era muito mais. Puxa, já pensou, mais de meio século. Antigamente os séculos demoravam muito mais do que os séculos de hoje. Outro dia era século vinte, agora já não é. O filho de meu sobrinho, de sete anos, de forma gostosa, perguntou-me se eu nasci no século passado. Revoltante, mas a gente vai se adaptando à ironia dessa geração. E olha que nossos filhos já passaram batidos. Os advirto, curta mesmo, passa rápido pra caramba. Você não vê o tempo passar. Nada pior do que já ver os netos, aí, impunemente, sem que você possa fazer nada. E eles lhe chamam de VOVÔ, em voz alta, perto das pessoas que a gente ainda imagina receber um olhar. Que ódio, mas é o tempo, e como é fatídico.
Sim, disse meu pai, amanhã faço sessenta anos. E lhe perguntei como sentia? Aquelas perguntas idiotas, que todo jornalista faz, no futebol, na novela, no teatro, na política, na vida. “Como você se sente com sessenta anos”. Vontade dar-lhe exatamente aquela resposta, mas temos que nos conter e dar aquela resposta hipocritamente, socialmente e eticamente plausível. Mas ele respondeu como 95% das pessoas responderiam. Bem, o tempo passou muito rápido. Disso temos certeza, mas quem responde, está imbuído de valores derrotistas, violentados, agredidos pela juventude que se renova a cada segundo e a gente tem a certeza de que,  daqui pra frente muitos ENTAS, já ficaram para trás. É, dá vontade ajudar de alguma forma. Não existem comprimidos, receitas que possam amainar esse estado de espírito, nenhum, nem os psicólogos, talvez os psiquiatras com uma boa dosagem de ansiolíticos e anti-depressivos. Só resta aquele tapinha nas costa, que representam o consolo ao derrotado. É melhor mesmo ficar calado, e se possível, para sempre, ao invés de dizer aquelas asneiras que só ouvimos daquelas pessoas treinadas nos grupos de salvamento, para evitar o desenlace fatal. Bonito, né?
Era o dia 23 de setembro. Meu pai acorda cedo, pega a Rural Willys, o carro da época, e vai para a fazenda, junto com seu amigo Pereirão, da cidade de Unaí, onde sempre fazia campanha eleitoral para o Coronel, e que, por estar aposentado, mudou-se para Brasília e fazia uns bicos no táxi. É a maior violência, tirar o homem do meio rural e colocá-lo no trânsito de qualquer Capital. Em troca do bem estar da família, muito estranho. Nem dez anos de terapia dariam jeito. Mas na falta dos filhos que não mais queriam acompanhar o sex, ou melhor, o sexagenário, MANOEL DE ALMEIDA, nas infindáveis viagens de fins de semana, fugindo das mesmices de Brasília, o velho Pereirão, sempre estava presente. Ele gostava muito de meu pai e sabia dos gostos dele. Lembrava-me de uma véspera de eleição em Unai, quando eu estava com ele percorrendo alguns Distritos, tentando conseguir alguns votinhos, para os já minguados votos que surgiam na cidade, após o poder econômico bater pesado na região. Quando me lembro que os primeiros motores de luz, nas cidades de Unaí e Paracatu, foram colocados por meu pai, além de escolas, pontes, balsas, bolsas de estudo, etc. MANOEL JOSÉ DE ALMEIDA, se elegia a base de muito trabalho e sacrifício, e eu sou prova inconteste disso. Um dia em Paracatu, estava passando o material de propaganda de meu pai às pessoas, quando uma moça vê sua foto e diz: Minha mãe só vota nesse homem. Que bom, disse eu, e você? Ela disse que votava no MDB, mas que a mãe gostava muito dele, pois havia dado a ela, aquela ingrata, uma bolsa de estudos, de sete anos. Coisas assim, desestimulam qualquer político – a ingratidão. Uma vez perguntei a meu pai, o por que dele não ter preparado nenhum filho para a política. E ele disse: A ingratidão, meu filho, sofri muita ingratidão e discriminação, por ter uma origem humilde. Não desejava isso para meus filhos. E continuei, por que então não preparou nenhum filho para substituí-lo na obra “caiomartiniana”. Ele parou, e com muita assertiva disse: ISSO É MISSÃO. Não é um desejo ou vaidade  de uma pessoa que o levaria a assumir um trabalho desses. É uma missão e poucos estão direcionados para tal. Eita, mas surgiu outra história dentro da história. Eu falava do Pereirão e fazíamos campanha política na cidade de Unai. Pois bem, quando chegou a noite, ele me levou para uma pensão para jantar. Era simples demais, sou muito nojento e presenciava atos que me incomodavam muito, principalmente na hora da jantar. Ele disse que iríamos dormir lá, pois o povo gostava de ver a gente convivendo com eles e coisa e tal. Hábitos de políticos demagogos. O banheiro era no fundo do corredor e o vaso ficava acima de uma fossa, onde eram visíveis uns bichinhos nadando naquela água imunda. Mas a causa era nobre e tinha que enfrentar aqueles preconceitos urbanoides. Não havia televisão, assim, fomos dormir logo em seguida. O travesseiro fedia, mas fedia demais. A roupa de cama não devia ser lavada há meses e, o cobertor estava até duro de sujeira. Tinha pernilongos atacando por todos os lado e, numa velocidade e ruído que faziam qualquer um desejar o sol nascer. Eu não sabia se colocava a cabeça debaixo do cobertor, onde o mal cheiro era insuportável, ou se colocava para fora, a mercê daqueles malditos insetos. Aquela noite deve ter demorado meses. O quarto tinha umas dez camas. E os roncos eram de uma orquestra que começa a afinar seus instrumentos, antes do concerto. E o bumbo era o mais potente de todos, somados às flautas, sim, pois tinha assobios e falantes noturnos.
Pois bem, lá se foi meu pai naquela empreitada de fuga de idade,  juntamente com o Pereirão. Mas com certeza o velho cabo-eleitoral iria mudar a feição de meu pai, contando casos e mentiras para melhorar o estado de espírito do velho guerreiro. Não era fácil, chegar impunemente aos sessenta anos. Alguma coisa tinha que acontecer. Naquele dia eu me preparava para ir a uma festa. Essa como outras tão desimportantes quanto tantas que foram extremamente importantes em certos momentos importantes de nossas vidas. É como aquele filme bom que você fica até as quatro da manhã assistindo e no dia seguinte não consegue lembrar do nome. Da festa eu não me lembro, mas a história dos sessenta anos do meu pai, nunca saiu da minha cabeça. E eu passei por esses sessenta e recordei muito aquela angústia paterna.. Felizmente, o meu trauma tinha sido aos quarenta. Mas foi sem emoção.
Já eram mais de 23:00 horas e eis que chegam, meu pai e o Pereirão, todos molhados, sujos, mas imundos mesmo de lama. Tudo podia ter acontecido, naquele desaniversário, mas que não fizesse tão mal assim ao meu pai. E então ele relata, pausadamente. “Estávamos bem próximos da fazenda, quando, de repente, sai de dentro da ponte, coberta de terra, num daqueles buracos que se abrem provocados pela erosão da chuva, um menino. Sim, um garoto. O carro vinha em velocidade razoável, quando a criança coloca a cabeça para fora, fazendo com que o velho Pereirão, não imaginasse outra alternativa, senão dar um golpe de direção para a direita, na velha Rural, do Coronel Almeida. E vai o veículo para dentro do riacho. O que aquele danado de garoto tava fazendo naquele lugar?  O carro caiu, meio de banda, com o lado direito, onde estava meu pai, para dentro dágua. O outro lado não chegou a ser tomado pela água barrenta, mas Pereirão, com a virada, caiu em cima do meu pai. Para se levantar, no desespero, colocou o pé no rosto do meu pai para forçar a saída da Rural. De cima da ponte, observava curioso o garoto, sem imaginar que fora o responsável por aquilo tudo. Já de fora do veículo, Pereirão puxa meu pai para cima e o traz até um barranco próximo à ponte. Estavam encharcados, sujos e para dizer a verdade, muito chateados, para não dizer exatamente a expressão que retrataria, literalmente, todo o sentimento de raiva de ambos. Passando um carro em direção a Brasília, pegam uma carona e deixam, malas e tudo mais dentro da Rural. Fico imaginando o que se passou na cabeça de meu pai, naquelas quase quatro horas de viagem de retorno, pensando no ocorrido e na explicação a ser dada a toda a família. Mas o drama da figura dos dois, tirava qualquer embalo de brincadeira ou sátira. Meu pai estava derrotado, vencido mesmo, pelos sessenta anos e pela trágica fuga das comemorações do anti-niver. Minha mãe logo preparou um café bem quente e o levou para um banho mais quente ainda e lhe disse: FELIZ ANIVERSÁRIO. Eu segui para minha festa, imaginando que muitas outras festas viriam, como vieram, mas não marcaram como a presença da marca de uma botina no rosto.

Depoimento de Cláudio Antônio de Almeida



 PRAIA DE CARAPEBUS


A perda de um membro da família é sempre dolorosa, principalmente, em se tratando de um cara tão legal. Sim, meu cunhado foi um grande companheiro e amigo. Era até chamado de Jeremias. Ziraldo, uma vez expondo seus desenhos em Belo Horizonte, comentou comigo que o “Jeremias, o bom” era o Paulão. Ele criou vários personagens, baseados no comportamento e caráter dos seus companheiros de república em Belo Horizonte, quando fazia o curso de direito. Todos sentiram muito. Meu pai me comentou uma vez, que lamentava muito, a família não ter lutado mais.

Diante desse ambiente, meu tio Astolfo, cunhado de meu pai, casado com a irmã dele, e uma das pessoas mais leais a ele, ofereceu sua casa, na Praia de Carapebus, no Espírito Santo, para a família passar as férias.   Meu pai estava muito abalado, pois acompanhou de perto, juntamente de minha mãe e minha irmã, toda a situação da morte do Paulão e considerou que o passeio à praia, seria uma boa terapia para toda a família. Para acomodar toda a família, meu pai sempre manteve um carro grande. Uma Kombi, ou uma Rural Willys. Se falar nesses nomes para a garotada de hoje, seria objeto de jacota. A estrada era terrível, perigosa mesmo, passando por Venda Nova, até chegar à divisa com o Estado capixaba.  Meu tio havia nos prevenido que teríamos que chegar cedo na vila de Carapebus, onde ficava sua casa, pois teríamos que fazer uma faxina, pois há alguns meses, ninguém tinha estado lá. Saímos assim, de madrugada de Brasília, passando rapidamente por Belo Horizonte, apenas para pegar a chave da casa com o Tio Astolfo.
Era uma Colônia de Férias da Polícia Militar de Minas Gerais. Meu tio, como meu pai, era Coronel e, buscando reduzir um pouco o complexo dos mineiros em não ter uma praia a tira-colo, construiu uma casa, muito confortável naquela Colônia. Seis filhos era o suficientes para se fazer uma boa limpeza. Antes, passamos, em Vitória, por um supermercado para suprir a casa, pois iríamos encontrar a geladeira vazia e lá não existia nem uma mercearia. À noite saímos para conhecer as instalações do Clube e acabamos jantando no seu restaurante. O prédio tinha uma forma arredondada, parecendo a cúpula da Casa Branca, nos “States”. Eram dois andares. A primeira vista, todos estranham o tipo de construção, mas depois que ficamos sabendo que ali, era uma tremenda jogativa, deu pra entender seus salões. Na época em que o jogo era proibido no Brasil, durante o Governo Dutra, muitos foram os cassinos clandestinos surgidos pelo interior do País. Havia ali perto, até um campo de pouso, para aviões particulares. Mas tudo ficou na história e, com a proibição, o jogo foi ficando cada vez mais difícil de se praticar no Brasil, e os jogadores, mais pobres, foram para o Paraguai, e os mais abastados, para Mônaco, Istoril, Lãs Vegas, etc.

No dia seguinte, antes das oito, quase todos já estavam de pé. Meu pai já estava na varanda, como sempre, curtindo sua rede, e a brisa do mar. A casa distava cerca de 150 metros da praia. Minha mãe, pra variar, já tinha deixado o café da manhã colocado na mesa para os filhinhos. Todos marmanjos, a exceção da Rita e do João. A praia era perigosa, mas tinha um lado, onde havia uma península, local em que os velhos tomavam banho de “assento”, como diziam entre eles. A água batia na canela, podendo adentrar ao mar, por vários metros, sem cobrir os joelhos. Ali ficavam os amigos de meu pai. Todos coronéis. Era um papo saudosista, que ia se repetindo até o último dia de férias. Minha mãe, já não se sentia tão à vontade. Nunca a observei papeando com as esposas dos coronéis, e assim, passava mais tempo em casa, fazendo almoço e lavando roupa, coisa que ela jamais fazia, em Belo Horizonte ou em Brasília. Não era chegada a ir a praia.
A vida de todos era uma verdadeira maravilha. Já imaginou? Passar o dia todo na praia, comendo peixe, camarão, etc. Em outras encarnações eu devo ter nascido na praia, pois sou alucinado por mariscos, crustáceos em geral e todo tipo de peixe. Pela manhãs saiamos cedo para participar do arrastão. Eram dezenas de pescadores que, lá pelas três ou quatro horas da manhã, jogavam as redes em alto mar em busca dos cardumes. La pelas sete ou oito da manhã, começavam a puxar a rede. Nesse processo, todos nós praianos, turistas, participávamos. Era uma farra gostosa. Mas no final das contas, os pescadores pegavam os peixes e colocavam nos balaios, para a venda. Na rede, vinha de tudo, peixe espada, baiacu, cavalo marinho, conchas, estrelas do mar, etc. Os pescadores nem ai pra essa caça, mas nós nos deliciávamos com isso, pois, nós mineirões, jamais tínhamos visto aquelas coisas. Sempre passava em nossa casa, um senhor forte, negro, de cabelos brancos, oferecendo peixes para o meu pai. Ele dizia que era ele quem pescava e contava aventuras em alto mar, aqueles papos de pescador. Meu pai acreditava piamente e comprava o peixe, por um preço muito salgado. Um dia fomos ao mercado central de Vitória, e nos encontramos com o “pescador”, amigo do meu pai. Ali era o mar dele. Era grande o esforço que fazia para retirar o peixe da água. Chamava-se João do Peixe. E sobrava sempre para a minha mãe fazer o pescado de acordo com o gosto do meu pai, que gostava de um tempero caprichado. Mas o predomínio de mineiros nas praias do Espírito Santo, era um fato. O sotaque era o mineirês mesmo. Até o governador à época do Estado, era mineiro, de Ubá. Assim, sentíamos em casa, literalmente. À noite, saíamos com os amigos em direção à zona boêmia do lugarejo. Era freqüentada, basicamente por marinheiros, com aquelas tatuagens mal concebidas nos braços e no peito. Tatuagem naquela época era coisa de marinheiro. Um amigo nosso pedia o carro do padre emprestado e ia pra lá também. Mas o padre desconhecia esse itinerário, lógico. O carro era um Fusca de Cor de Abóbora, conhecido em toda a região. Imagino o que pensavam, quando viam o carro naquele ambiente. 

Mas a nossa paz veio a ter uma ruptura desagradável. Dormíamos, com as janelas abertas, e até mesmo as portas destrancadas. Era um clima descontraído de praia, sob todos os aspectos. Sem preocupação nenhuma com a violência do mundo urbano. Numa madruga meio chuvosa, uma quadrilha desligou as luzes da Colônia e invadiu várias residências. Entraram em nossa casa e levaram vários aparelhos de som e objetos. Eu tinha chegado há poucos dias de Manaus, onde adquiri muitos aparelhos. Toca-fita, gravador, máquina fotográfica, televisão portátil, enfim, uma quantidade de coisas que àquela época não eram tão disponíveis nos mercados das Capitais. Levamos tudo para praia de Carapebus. Limparam tudo. Teve um ladrão, cara de pau, que chegou a entrar no quarto dos meus pais e tirar seu dinheiro no bolso da calça. Minha mãe acordou, viu o indivíduo, mas fingiu dormir. Tão logo o meliante deixou o quarto, acordou meu pai e disse-lhe o que havia presenciado. Meu pai levantou-se rapidamente, e foi até o quarto onde me encontrava, juntamente com os irmãos homens e falou sobre o assalto. Não tínhamos arma. Imagine, uma Colônia de Férias da Policia Militar de Minas Gerais, sendo assaltada, por ladrões capixabas, e nenhum dos coronéis tinha sequer uma pequena beretinha. Eu e meus irmãos pegamos uns cascos de cerveja e saímos correndo pela estrada que leva até o vilarejo, para ver se conseguia encontrar os ladrões. Mas não deu em nada. Foi chato, mas nas outras residências, foi bem mais desagradável. Minhas irmãs não chegaram a ser molestadas, mas soube que em outras residências, chegaram mesmo a ameaçar os casais, as mulheres e até as crianças. Criou-se um ambiente muito desagradável, o que levou os coronéis a se reunirem e procurarem o Governador do Estado e o Secretário de Segurança. Era muita petulância, invadir um Clube Militar. Mas, parece que vingaram a honra dos “vitorinos” diante da invasão mineira nas praias capixabas. Algumas famílias retornaram para Belo Horizonte e outras permaneceram, mas daí em diante, sob uma forte apreensão. Alguns filhos dos militares, mais revoltados, chegaram a pegar suspeitos que perambulavam pela praia, como bode-espiatórios, dando-lhes o chamado corretivo. Meu pai ficou muito revoltado com esses métodos e do ambiente gerado, pois sabia que aqueles raivosos, eram filhos de seus companheiros de farda. Assim, comunicou o fato ao meu tio, e que diante das circunstâncias, voltaríamos para Brasília.

Mas nosso vínculo com Carapebus já estava destinado. Caminhando e meditando pelas praias próximas à Colônia de Férias, meu pai viu uma casinha, a beira mar, branquinha e azul del rei, com uma placa de “vende-se”. A chave estava com um vizinho próximo, que mostrou a casinha para meu pai. Ele olhou, gostou e chegou em casa dizendo: Comprei uma casa aqui em Carapebus, na beira do mar. Fomos até o local e ficamos encantados. Era realmente uma beleza, um paraíso. Diziam que a casa já estava à venda há tempos, mas não pintava ninguém que se interessasse, apesar da bela localização. É que ali ocorreu um triste acidente com a família-proprietária. A morte de uma criança por afogamento, em frente da casa. O mar ali era muito perigoso, todos fugiam de lá. Aquela família residia em Vitória e usava a casa para os finais de semana. Meu tio Astolfo, chegou no dia seguinte, juntamente com o sobrinho inseparável, Zé Carneiro, casado, com a prima, minha saudosa Tia Bela. E o Zé brincava: O Manoel nasceu .... pra lua... E a minha tia Maria, irmã de meu pai, ingenuamente repetia. É, Manoel nasceu pra lua. A casa veio a ser um reduto mineiro em terras do Espírito Santo. Praticamente,  todos os anos, fracionávamos as férias para curtir a praia de Carapebus, pois, todos foram se casando e, já não existia mais espaço para todos. Várias foram as vezes em que fui com minha família, onde passávamos quase o mês todo. Era o nosso resort. O acesso à Colônia era difícil, pois, por capricho, creio, mantinham uma estrada de terra, precaríssima. Com isso, a especulação imobiliária foi, por décadas, postergada. A aldeia de pescadores se manteve. Nossa praia ficava num hiato, entre o Porto de Tubarão, em Vitória, e Aracruz, onde existia uma fábrica de celulose, que produzia odores terríveis, mas o vento soprava, quase o ano todo, para o norte. Era um ponto estratégico, mas creio que não houve interesse do Estado em ocupar a área. 

E os anos se passaram, e meus pais e os seis irmãos, freqüentavam, com suas famílias ou amigos e namorados aquela praia bendita. Com o tempo, os netos de Manoel de Almeida e D. Márcia, passaram a assumir aquela espaço, então com as janelas pintadas de verde.  Ali foi palco de grandes festas promovidas pelas várias gerações dos Almeidas. Mas já não havia mais o arrastão, o João do Peixe, que vendia para o meu pai, aquele peixe pescado no mercado, e que meu pai saboreava com prazer. Não mais existiam os coronéis, não mais existia aquele ambiente de festa. E a casa começou a ficar sem frequentadores, sofrendo os efeitos do vandalismo e de vários assaltos, o que veio a desmotivar as idas àquele paraiso.

E agora, recebo uma ligação de meu irmão João, informando que minha mãe o autorizara vender a casa de Carapebus, diante dessa situação e que, conseguiu uma boa oferta. Estava João em Vitória e sacramentava a venda do imóvel. Por um momento pensei nesses mais de quarenta anos ali vividos, desde aquela visita de meu pai àquela casa, perdida em frente à praia. Durante esse tempo, jamais houve um acidente, nas centenas de viagens que fizemos para aquele Estado, a exceção de uma derrapada do carro da Rita. Jamais houve um acidente na praia, no mar, com todos os descendentes de Manoel de Almeida. Mas ficou na lembrança, os bons momentos vividos, e como foram bons. Espero que o comprador tenha sido um capixaba, pois assim, reduzo um pouco a minha culpa diante daquele bravo povo do Espírito Santo.

CLÁUDIO ANTÔNIO DE ALMEIDA

Depoimento de Cláudio Antônio de Almeida


ONDE FOI PARAR O BANDOLIM?


Tinha que ter alguém na família que tocasse algum instrumento. Mas parece coisa ruim, pois ninguém deu pra música. O pai de meu pai, José Antônio de Almeida, era o homem dos sete instrumentos. Além de tocar bem, ainda dava uma de maestro. Tenho comigo uma flauta linda, transversal, toda desmontável, dada por ele, já no leito de morte. Essa flauta suscitou muito ciúme, pelo que soube mais tarde, mas faz parte das paixões de família. A caixa da flauta é de madeira, toda trabalhada, feita à mão pelo Tio Antônio. Ele era irmão de minha . Por quem meu pai tinha enorme afeto e confiava tarefas difíceis, por saber que ele não era de arregar por qualquer coisa. 

Meu pai seguiu parte dos passos musicais paternos. Tocava flauta e cavaquinho. Do lado de minha mãe, todos eram regidos à música. Desde meu avô que tocava na banda da cidade, até as filhas. Todas cantavam no coro orfeônico da cidade de Boa Esperança, onde viviam. Minha tia, irmã de minha mãe, também tocava sete ou oito instrumentos. E ainda cantava e namorava muito. E fazia música, mas faltavam os versos.  Essa parte era minha mãe quem criava, nas quermesses, nas festas juninas, na Semana Santa. Minha infância foi toda passando semana santa lá. Era muito triste aquela cantoria de sexta feira da paixão, mas tudo passava e virava festa. 

Uma vez, um circo, do BiBi, passou pela cidade e apresentou o grande espetáculo: “Nascimento, vida,  paixão e morte de Jesús Cristo”. Fomos todos para o circo e nos sentamos na frente, onde havia uns camarotes, a poucos metros do picadeiro. Eu sempre levava comigo o meu mico. É, aquele velho companheiro que ficava no meu bolso para todos os lugares onde eu ia. Como na cidade tinha muitas árvores, em suas fugas, era um pandemônio encontrá-lo. Eu saia pulando os muros dos vizinhos atrás dele. O Pai Zé, meu tio querido, me acompanhava e estimulava. Pois bem, no momento em que o Cristo penava na cruz, depois daquele sofrimento todo, de açoites e agressões, parou por alguns instantes, próximo ao lugar onde nos encontrávamos. Por uma razão qualquer, o mico saiu do meu bolso e pulou na cruz. Foi o caos. Subi no picadeiro pra pegar o mico que pulava para todo lado, deixando o pessoal do circo desorientado. Minha tia Flor, aquela tia especial, também subiu no palco para ajudar-me na caça ao mico. E o danado do animal pulava da cabeça do Cristo para a cruz e da cruz para cima dos soldados fantasiados de romanos, que o açoitavam. Aquele movimento fez com que tudo se transformasse. De um espetáculo triste e de muito sofrimento, virou uma comédia. Para mim, uma tragi-comédia. O povo ria e curtia a minha caça ao mico. Não precisa dizer que o espetáculo acabou. No dia seguinte, lá foi o BiBi na casa dos meus avós conversar com meus pais. Disse que teve um prejuízo muito grande, que foi prejudicado e coisa e tal e queria uma indenização. Como era conversa de adulto, eu não me meti, pois meu assunto era só a integridade do meu mico. Assim, não sei no que deu, mas a peça não merecia nenhuma indenização, era muito ruim mesmo. Acho que meu mico foi um coadjuvante importante para popularizar o circo. E até hoje essa história é lembrada na cidade. Afinal era fazer graça é o que o circo se propunha. Mas quase me esqueço do Bandolim. 

O tempo passou e eu, já adulto e fazendo as coisas de adulto, lembrei-me um dia que meu pai tocara bandolim quando jovem.  Era aniversário dele, assim, nada melhor do que dar-lhe o instrumento de presente. Fui numa loja em Brasília, chamada Bi.Ba., veja que nome, e comprei. Era lindo. À noite levei-o para meu pai. Ele ficou extremamente feliz. Disse que já não tinha mais aquela mobilidade nas mãos e nos dedos, mas mesmo assim, começou a dedilhar aquela quantidade de cordas duplas como se tivesse tocado pela última vez, no dia anterior. Foi uma festa. Acertar um presente assim, não é todo dia. E o fiz feliz.
O tempo passou e meu pai, já com a saúde bastante debilitada, encostou o bandolim em algum canto, passando, efetivamente, a ser passado.

Quando nasceu minha filha caçula, Giovanna, meu pai se encantou com ela. Ela era realmente uma bebê muito bonito, clarinha, loira e muito sorridente. Era feliz. Meu pai sempre foi meio espiritualista.  Não sei se existe meio espiritualista, mas ele era bem chegado a esse negócio de reencarnação. Eu já preferia curtir os candomblés na Bahia. Mas nesses encontros de meu pai com o mundo espiritual, ele foi informado de que a Giovanna era reencarnação da Marcela, filha de seu irmão, João de Almeida. Era igualmente uma bela criança, lembro-me bem dela. Mas o destino a levou, acometida por um câncer no cérebro. Seus últimos dias foram dolorosos e não nos permitiam visitá-la no hospital, tal era seu estado. Sei que foi muito sofrimento para ela e toda a família. Que eu me lembre, foi o único falecimento de um primo ou sobrinho, em toda a minha infância e juventude. Até pra receber a morte, a gente tem que se habituar. E isso não deve ser boa coisa. Mas Giovanna cresceu e sempre que a levava a Belo Horizonte, meu pai demonstrava uma atenção especial por ela. Ela era muito carinhosa com ele, dançava pra ele, cantava cantigas, etc. Devia ter seus três anos. 

Meu pai, já não mais político, residindo em Belo Horizonte, passou a ter uma vida de rotina, sem muitas emoções. Já não mais viajava e limitou seu universo ao mundo das novelas. E que, por sinal, ele demonstrava gostar. Também não havia outra alternativa. Na época eu cursava direito e, achando que era uma fórmula de preencher o tempo intelectual de meus pais, passei a pedir que eles fizessem os meus trabalhos acadêmicos.  E foram vários. Eles pesquisavam em biblioteca, estudavam leis, etc. Fizeram trabalhos excelentes. Adoraram a idéia. Muita inteligência ociosa. Naquela época não havia essa mamata da internet. Havia pesquisa mesmo, profunda e fundamentada. Assim, posso dizer que parte do meu diploma de advogado, devo a eles. Vou lhes atribuir a parte de Família e  fico com a Penal. 
Numa de minha idas a Belo Horizonte, meu pai disse que gostaria de ver a Giovanna. Ela morava com a mãe e era complicado sair de Brasília, mas a levei. Foram, aproximadamente, duas semanas. Minha mãe dizia ao telefone que meu pai estava adorando a presença da netinha. Ele já não suportava a quantidade de remédios que tomava o dia todo. Seu estômago repelia alimentos. Mas Giovanna conseguia dar-lhe os comprimidos na boca. Era preciso e minha mãe sabia que ali estava sua vida. De acordo com o relato de minha mãe, um dia, ela dançava para ele na sala e cantarolava músicas infantis. Meu pai se deliciava. Pegou-a pela mão e foi caminhando até o quarto do casal. Lá, tirou de dentro do guarda roupa, uma fronha contendo algo de muito especial. Era o bandolim. Era a esperança de ter um neto músico, pois a primeira geração passou em branco e a segunda, idem, a exceção de uma neta que tocava viola. Com muita dificuldade, ele tocava para ela, algumas músicas de sua juventude, no instrumento. Os dias fluíam e meu pai voltava à infância. Eram duas crianças. Uma tocando o bandolim, outra cantarolava.  E minha mãe observava à distância o reencontro do Bandolim. O encontro de gerações.


sexta-feira, 23 de março de 2012

Depoimento de Cláudio Antônio de Almeida

DEU BODE !!!

Falar em Manoel José de Almeida, normalmente é papo bom. Tem também as “cositas mas tristes”, coisas da política, mas essas eu vou reservar para outra oportunidade. Falar de coisa engraçada é bom e esse papo do BODE, quase levou a vida de meu pai. Essa foi ele mesmo quem me contou.
Eu já disse que ele adorava avião. As vezes os pilotos deixavam que ele segurasse o macho do avião e conduzisse a aeronave por algumas horas, corrigindo somente as mudanças de traçado. E nos finais de semana, ninguém segurava o Coronel em Brasília ou mesmo em Belo Horizonte. Viajava e viajava muito, havia muito desejo em permanecer no ar, eu imaginava. É bom se distanciar dos problemas, nem que seja por algumas horas. E seu companheiro, como piloto, por muitos anos foi o Lourival. Um homem alto, meio grisalho, mulato, arredio, de pouco papo. Mas no avião, quem falava era só o Coronel e o Lourival ouvia, sem fazer qualquer comentário. Não me parecia ser um piloto seguro, mas, na média, era melhor do que, a grande maioria dos que viajavam com meu pai. Lembro-me uma vez, indo para uma cidade, próxima a Governador Valadares, e o campo de pouso era cercado, de ambos os lados, por postes de madeira e arame farpado. Era uma grande festa na cidade e meu pai tinha assumido o compromisso de lá estar. O piloto sobrevoou o local e disse a meu pai: nesse campo eu não desço. É muito perigoso, mande o Prefeito tirar essa cerca dali. E seguimos para Governador Valadares. De lá, meu pai ligou para o Prefeito daquela cidadezinha, informando da opinião do piloto. Impossível tirar, vários aviões já pousaram aqui, sem problemas, disse o Prefeito. Era quase um quilometro de cerca para satisfazer os desejos do sr. Lourival. Mas ele era cordato e meu pai determinou: vamos voltar lá e descer. Eu sentado no banco de trás do avião, apenas acompanhava aquela insegurança do homem. Mas, já de cima da cidade, Lourival deu algumas voltas em cima do campo e, deve ter pensado – seja o que Deus quiser. E fomos nós. Era um cercado completo, para evitar a entrada de gado na pista. Assim, na cabeceira tinha cerca e arame, bem como dos lados. E descemos, quase raspando nos postes, mas pousamos. O homem suava de molhar toda a roupa. Meu pai não deu maior importância ao fato e seguiu para o seu compromisso político, mas senti que o Lourival estava mal e que seria um problema na volta. E assim ocorreu. Meu pai teve que pedir a um piloto da cidade que levasse o avião até Governador Valadares. Numa outra vez, em Pirapora, um rapaz ao pular da ponte do Rio São Francisco, bateu com a cabeça numa pedra.  O pai do rapaz, que fazia oposição a meu pai na cidade, veio ao hotel pedir para emprestar o avião e levar o acidentado a Belo Horizonte. Meu pai não pestanejou e pediu a Lourival para ir, e, se possível, voltar no mesmo dia, pois ele tinha uma agenda apertada de viagens no norte de Minas. E não é que na volta o piloto se perdeu. Mesmo, se enrolou e foi para lugares que nem posso imaginar. Eu acompanhava a angústia de meu pai, pois ele já se informara de que o avião saíra no dia anterior da Capital mineira e ainda não chegara a Pirapora, a no máximo, duas horas de viagem, dando umas erradas. Mas, um dia depois, eis que aparece o avião e o velho piloto. Era fácil viajar ao lado de meu pai, pois ele nem precisava ver as cartas náuticas, pois conhecia toda a topografia do Estado, bacias hidrográficas, montanhas, etc. E orientava com desenvoltura todos os pilotos. Alguns até, a meu ver, acreditavam demais. No norte de Minas comentavam que a grande maioria das estradas saía da cabeça de meu pai. Pois, ele pegava o tratorista, de apelido, Grilo, e sobrevoava a região. O Coronel, como topógrafo,  indicava por onde deveria passar a estrada. Normalmente ele acertava, a exceção de uma vez em que a estrada bateu numa cachoeira, mas ninguém é perfeito, né?
E o avião carregava de tudo. Tudo mesmo. Desde saco de arroz, feijão, litros de leite, galinhas vivas, cachos de banana, etc. Quando passava pela fazenda, fazia o possível para encher o avião de tudo o que fosse possível, para agradar a D. Márcia, que sempre reclamava, que tudo vai pra fazenda, mas nada volta. E ela tinha razão, pois, no natal tinha que comprar pernil, peru, etc., e na fazenda existia criações de porcos, carneiros, cavalos e gado bovino. E numa dessas, lembrou meu pai que havia prometido a um amigo, de uma propriedade próxima dali, um reprodutor de carneiro. Sim, um BODE velho. Recomendou ao administrador da fazenda, não sei se seria exatamente esse o nome da função daquela figura, pois não tinha noção de nada que ocorria dentro da propriedade. E os amigos de meu pai alertavam - cuidado com esse cara. Ta lhe furtando. Uma vez ele disse a meu pai que a onça havia comido vinte ovelhas. Engraçado que não deixou nenhuma carcaça dos animais como prova do crime do felino. Mas o Manoel de Almeida foi sempre um crédulo, sempre confiou nas pessoas. E dizia, não creio, é um homem bom. Mas pediu ao gerente para pegar o carneiro e amarrar bem as pernas do bicho com tiras de couro, pois iria levá-lo de avião. O Lourival olhava de lado e resmungava, sem que meu pai pudesse perceber o que dizia, mas a insatisfação era total naquele transporte inédito. Pois bem, amarrado o animal, a tarefa consistia em colocá-lo na parte traseira do teco-teco. Recolhia o banco e encaixava o leporino, que era muito grande, atrás dos bancos dianteiros. Precisou de alguns homens para carregar o bicho até o avião, e introduzi-lo no cubículo. A expectativa de todos era muito grande, pois um passageiro daqueles, ninguém havia presenciado na história da aviação. Mas lá estava o BODE, que berrava escandalosamente para toda a região presenciar a sua despedida da propriedade. Lourival já se encontrava dentro do avião e meu pai dava as últimas instruções ao “administrador da empresa”. Quando a gente chegava na fazenda, o cara gritava tanto, que qualquer um podia imaginar que, se continuasse assim, ficaria rouco em pouco tempo. Era seu método de demonstrar presença, competência, etc. Mas, bastava circular pela fazenda para constatar que aquilo tudo era uma grande encenação. Mas meu pai confiava nele, e muito.
O motor do avião já estava ligado e adentrou o Coronel no pássaro voador, com os berros do bode misturado ao barulho do motor da aeronave. Era uma festa de rock. O campo de pouso era relativamente pequeno, mas o bastante para levantar vôo com três pessoas, em condições normais. Mas ali estava uma carga diferente das anteriormente carregadas. O bicho gritava, e muito. Não sei a distância da fazenda onde meu pai deixaria o animal, mas quinze minutos sob aqueles ruídos, já eram insuportáveis. E lá se foi o Lourival, embalando em direção pista acima, com destino previamente definido. Percorreu cerca de duzentos metros e o animal, imenso, nervoso e desorientado diante daquela experiência inédita de vôo e do barulho do avião, conseguiu se desvencilhar das amarras nas pernas e começou a espernear, dando coices para todos os lados. Marradas também não faltaram em direção aos assentos dianteiros. E a pista já estava chegando ao final e Lourival continuava célere, tentando se desfazer o mais rápido daquela carga indesejável. E o animal estava enlouquecido, já tendo destruído o assento traseiro, as laterais do avião e provocando uivos cada vez mais estranhos. O bicho tava possuído. A menos de cem metros do final da pista, meu pai dá um grito: Pare o avião.  Mas como, dizia Lourival. PARE, gritava meu pai desesperado com a perspectiva de ter aquele animal em pleno vôo, provocando o imponderável. Sim, porque ele a cada momento se mostrava mais nervoso. E os dois arregalavam os olhos. Imagine lá no alto, se o bicho salta sobre meu pai e o piloto. As portas traseiras do avião eram frágeis e não suportariam aqueles coices violentos que estava recebendo. Acabariam cedendo. No desespero, meu pai diz: Dê um cavalo de pau. (cavalo de pau para os leigos, consiste em frear uma das rodas dianteiras do avião, fazendo-o rodar e isso, só se faz em situações emergenciais). E assim foi feito, surpreendentemente, com maestria. O piloto desacelerou completamente o avião, que rodou algumas vezes sobre o eixo da roda presa, até parar completamente. Meu pai saltou e abriu a porta traseira do avião, vendo o infeliz animal saltar e nunca mais ser visto em uma área superior a cinqüenta quilômetros. E olha que a propriedade era cercada, em grande parte, por rios. A partir daí, Lourival ficou até mais claro. O caso virou lenda na região. O Bode que voa. E a superstição cresceu quando diziam que nem era um bode, mas um cavalo alado que o Coronel transportava.

CLÁUDIO ANTÔNIO DE ALMEIDA 

quarta-feira, 21 de março de 2012

Novo depoimento de Cláudio Antônio de Almeida


TEM CAMPO DE POUSO?


Falar em MANOEL JOSÉ DE ALMEIDA, é falar também em avião. Ele faria tudo para ser um pássaro. Se não veio com asas, as criou em forma de ideal. Nem o avião lhe bastava. Precisava voar, voar, voar, ver o mundo pequeno para poder consertá-lo. E sabia que levaria tempo, não era uma só demão que atingiria a perfeição do resultado. Mas, nem Deus o fez com perfeição e, creio, nem tentou. Assim, os homens teriam um espaço para realizar algo dentro de sua dimensão.

E assim, era um predestinado a ter um avião para alcançar sua pressa. Num convite feito por D. Darcy Vargas, mulher do Presidente da República, Getúlio Vargas, para que levasse alguns atos e idéias caiomartinianas para sua instituição de amparo ao menor, na Ilha de Marambaia, no Rio de Janeiro, ocorreu o seguinte diálogo: “Coronel, como posso agradecer o que o senhor fez por aquelas crianças”. Sem pestanejar ele disse: “Quero um avião”. O homem sempre pensou grande. Mas como, onde vou arranjar, disse ela? A aeronáutica acabou de receber uma esquadrilha de aviões PIPER, respondeu ele. Foi a senha bastante para ser acionado o prestígio da Primeira Dama e entregue, no mesmo dia, o pedido alado. Nem precisa dizer como o estômago dos aeroviários se contorceu de ódio.  Ao Rio era chamado pelo Coronel Almeida, o eterno Capitão Pedrinho, para levar o pássaro verde, como veio a ser denominado, e participar da história da FUCAM.

As distâncias entre as “Caio Martins” diminuíram. Antes, para se levar o pagamento dos funcionários até o Carinhanha ou ao Ururucuia, se fazia de carro ou caminhão. Era uma tortura, pois as estradas eram ruins ou inexistiam, durante as chuvas. Os socorros, as emergências, passaram a ser corrigidas por um novo compasso. Ali, existia uma benção, mas surgiu um tormento na vida da D. Márcia de Sousa Almeida, a esposa. Naquela época os meios de comunicação eram precários e o correio e o radio, eram as válvulas de escape para reduzir a distância oral. Manoel de Almeida não temia qualquer mal tempo, pelo contrário, dificilmente enxergava uma nimbus ameaçadora. O Capitão Pedrinho era o termômetro de D. Márcia, que acreditava na sua determinação para não levantar vôo em condições de risco. E ele o fazia com determinação e corágem. Já imaginou um Capital peitar um Coronel e dizer NÃO!!! Pois o Pedrinho dizia e continuava mascando aqueles palitos de fósforo, da mesma forma, sem pestanejar, fazendo brilhar aqueles olhos verdes, naquela tez queimada de sol. E as orações de minha mãe se multiplicavam, quando as chuvas se tornavam mais intensas. E o Coronel não admitia viajar junto com a esposa. Temia uma situação de perda total, irremediável. Mas aquele bendito “pássaro verde”, cruzou o Estado de Minas, em todas as direções, sem jamais ter sofrido um acidente. O Capitão o tratava como um canário de estimação. Lavava pessoalmente o Piper, trocava o óleo, fazia uma vistoria, com um zelo digno de um carro novo  Era seu xodó.

Mas a “Caio Martins” levou o homem a novos vôos. Diante das dificuldades enfrentadas pela Instituição, não restou outra alternativa, a não ser entrar para a vida pública. Foi assim, eleito Deputado Estadual, com a quarta maior votação, para a Câmara Legislativa. E agora, como se deslocar? Agora político, as figuras mudaram. Decidiu assim comprar um avião para atender aos seus deslocamentos entre as cidades que o apoiaram na nova empreitada legislativa. Ai surgiu a figura do avião Cessna. Saudades do Capitão Pedrinho. Os pilotos brotavam de todos os lados, sem que ao menos se soubesse de sua formação aeronáutica. E foram vários. Lembro-me do Péricles. Completamente louco. Adorava passar com o avião debaixo da ponte de Pirapora. E o fazia com maestria e até um certo deboche. Era uma mistura entre a competência e a irresponsabilidade. Tinha um outro piloto que meu pai o buscava num boteco, na rua da Bahia, em Belo Horizonte. Ele sempre estava lá tomando uma cervejinha. Na inexistência de outro, o Coronel o pegava e seguia viagem. D. Márcia transpirava pavor. As vezes ela ia de carro e ele de avião, para atingir os festejos que sempre ela organizava, nas Unidades da Caio Martins. Regia o coro, apresentava temas folclóricos, preparava a recepção para as autoridades, organizava o almoço, enfim, dava o toque feminino e até o masculino. E só ela o fazia com tal competência, as vezes deixando em Belo Horizonte a filha carente das mamadas maternas, para cumprir os compromissos do Coronel. E ele sentava no assento da frente do avião. Não me lembro de ninguém ter ocupado aquele lugar, quando ele se encontrava no avião. Até o Dr. Israel Pinheiro, candidato a Governador de Minas, sentou-se atrás. Não precisa dizer do resto, mas resto mesmo. No carro mesmo, ele se sentava ao lado do motorista e, sendo este casado, jamais procurou saber se a esposa questionava aquele lugar ao lado do marido. O lugar era dele, do Coronel. Ali, ele traçava as coordenadas, juntamente com o piloto. Ele conhecia toda a topografia do Estado, com uma compreensão cartográfica invejável. Posicionava os rios e montanhas e tirava suas bases para atingir suas diretrizes de pouso.

Num dia desses de urgência, necessitando ir de Brasília a Belo Horizonte, pegou um avião de carreira e mandou, eu e duas irmãs no seu  Cessna. Como sempre, o piloto era sempre o imprevisível, o imponderável, mas sempre surgia um. E este da vez, era piloto da Novacap, órgão do Distrito Federal, e que se encontrava de férias ou, de licença (???). Mas, lá fomos nós para BH, nas mãos de um desconhecido. A viagem foi um tormento, pois o homem se perdia e demonstrava não entender as cartas náuticas, deixando-me apreensivo. Senti que a figura não tinha muita intimidade com o aparelho. Finalmente, nos aproximamos de Belo Horizonte, naquele aeroporto da Pampulha, que, para um avião de pequeno porte, era suficiente para um bom pouso. Mas não, o homenzinho, foi abaixando o nariz do avião e descendo, descendo e descendo. Eu cheguei a dizer que não ia dar, para levantar o avião, caso contrário bateria naquele aterro que antecede à pista de asfalto. Pra dizer a verdade, ele pousou, quase na quina do barranco, ainda na parte de terra, e saiu zig-zagueando pelas margens da pista. Ficamos apavorados. O medo tomou conta de todos nós. Chegamos e fomos à casa do nosso tio Astolfo, casado com a irmã de meu pai e relatamos para nossos primos as barbeiragens do piloto. Mas ficamos com receio de levar essa informação ao Coronel. Ele estava cheio de preocupações e não senti ambiente para dizer a ele o ocorrido. Para dizer a verdade, não me lembro mais o que eu e minhas irmãs fomos fazer na Capital mineira. Acho que o medo deletou  a lembrança do passeio.

Dois dias depois, voltamos ao aeroporto para retornar a Brasília. O piloto era o mesmo. O pavor, já não era contido, era pior. Estar nas mãos de um cara desse era pior do que montar na garupa de um motoqueiro alucinado. Seguimos para Brasília. Mas, tinha que acontecer algo, mas algo no meio da viagem e haja algo. O piloto começou a ter convulsões. Sim, o homem era epilético. Eu olhava pra ele e tentava segura o mancho do avião, numa forma de controlar a queda vertiginosa que a aeronave atingia. As minhas noções de aviação se restringiam a meras curiosidades dos tempos em que em Belo Horizonte se usava levar as crianças para curar o coqueluche, num vôo de avião.Coisa de mineiro. Lembro-me de ter ido na frente e fazendo aquelas perguntas todas que a criança faz a um piloto. Mas creio, não tenho certeza, aquele era um “paulistinha”, avião usado para treinamento de aprendizes de aviação. Mas continuando, o piloto babava. Sim, babava. Minhas irmãs rezavam e muito. Uma delas falava nomes de santo que eu nunca ouvira na minha vida, mas àquelas alturas, eu chamaria até os parentes dos santos para nos ajudar. Percebi, que estávamos em cima da barragem da represa de Três Marias. Sabia que lá havia um campo de pouso, asfaltado, pois uma vez passamos por lá. Segurei os braços do piloto, num desespero de fazê-lo voltar a si e pouca coisa consegui. Foi então que resolvi dar-lhe um soco no rosto. Não sei se foi essa a razão exata da volta do homem ao mundo terrestre, ou se foram os santos que ficaram tentando decidir qual deles iria interceder naquele episódio de previsão catastrófica. E ele perguntou: TEM CAMPO DE POUSO? Eu lhe disse que o que o campo estava lá, naquela posição, e indiquei, mas, creio, o avião estava perdendo muita altura. Enxergamos então um pequeno campo de pouso, de terra, mais na parte baixa da barragem. Era cercado por arame farpado e tinha algumas construções próximas. Devia ser um campo improvisado, durante a construção da Usina Hidrelétrica, e ainda em estado razoável de uso. Mas a aeronave perdia altura a cada segundo e eu me apavorava. Minhas irmãs já tinham desistido de chamar os santos e já choravam copiosamente, dizendo todas aquelas coisas que as pessoas dizem nessas situações e que, depois, não dá mais pra lembrar de nada, tais as idiossincrasias reinantes. E o avião baixava. O homem voltava a babar e eu o ajudava a segurar o mancho, imaginando poder colaborar de alguma forma. Mas conclui, não existe forma nenhuma. A coisa vai explodir e não tem jeito de evitar. E o campinho vem chegando, chegando, e aviãozinho mais parecia abanar as asas como forma de despedida. Teoricamente, não haveria forma de pousar balançando tanto as asas. Mas viemos, viemos, e o campo chegando. Ao lado da pista, uma cerca de arame farpado. Será que o avião ia caber naquele espaço do meio. Era tudo o que eu desejava.e torcia A essa altura, nem a respiração das irmãs se ouvia. Creio que minhas irmãs já teriam entregue suas vidas aos santos mais ajuizados. E o avião “placou”. Expressão usada, quando ele bate bruscamente com as rodas no chão, praticamente caindo, e não pousando. Isso que acontece hoje em algumas companhias de aviação, quase destruindo a nossa cervical. Bateu muito forte no chão e saiu de lado, carregando a cerca de arame farpado, num barulho infernal. E o avião parou. Olhei para a cara do piloto e ele não parecia ter consciência de tudo que estava acontecendo. Da boca do piloto, escorria aquela baba nojenta. O motor do avião ainda funcionava e a lateral  direita da aeronave estava presa ao arame e aos postes de madeira, que, hoje, creio, foram ali colocados por todos os parentes dos santos que minhas irmãs chamaram. Só eles iriam ter essa idéia. Mais nenhum técnico em aviação  idealizaria aquele freio.

Em pouco tempo, desceram correndo, da barragem, algumas pessoas alarmadas com toda aquela confusão provocada num lugar tão calmo e tranqüilo. Tiraram-nos de dentro do avião e comentaram que estavam apavorados com o que o avião estava aprontando no ar. Imaginaram até que o piloto estaria brincando, tais eram as loucuras observadas. Olharam o estado do piloto e arregalaram os olhos, como se vissem o conde drácula saindo do caixão. Percebi que as pernas de minhas irmãs não obedeciam aos seus comandos. Foi preciso carregá-las, até encontrar um local distante do avião para domar o susto. Todos temiam que o avião viesse a explodir, pois vazava gasolina e o lado direito do motor estava muito danificado. Seguimos até um lugar, que imagino ser o acampamento dos engenheiros, onde nos deram refrigerantes e algum alimento. E agora, como falar com nossos pais? Não querendo dar uma notícia tão desagradável para meu pai, achamos melhor comunicar, por rádio, meu tio Astolfo, que a retransmitiria por telefone a meu pai. E foi assim, feito. Ele, com aquela habilidade fantástica para dar uma notícia, contatou o Presidente da Câmara, que presidia naquele momento uma sessão: Avise ao Deputado Manoel de Almeida que. “seu avião caiu em Três Marias com seus filhos e, parece que não sobrou nada”. Sutil, curto e rasteiro. O Presidente  dispensou meu pai de uma votação que ocorreria naquele instante e toda a família seguiu de carro com destino a Três Marias, em tempo recorde. As notícias não possibilitavam outra atitude. Àquela altura, eu já queria mais era esquecer todo aquele pesadelo. O piloto dormia, e dormia. Junto com alguns engenheiros, fui até a parte baixa da barragem para pescar. E lá, ficamos por algum tempo. Meus pais chegaram e abraçaram minhas irmãs, totalmente purificadas, diante de tantas promessas feitas, se tudo saísse bem daquela tormenta. E vem o desespero de minha mãe. “Onde está o Cláudio?”. Até que me encontrassem, ela viveu a sensação de perda eterna. Mas eis que surjo, sem nenhum peixe, para a tranqüilidade geral da família ALMEIDA.

Meu pai conversou por algum tempo com o piloto e decidiram que o avião seria levado de caminhão para Brasília. Ele pediu a meu pai que não o denunciasse, pois aquela era a única profissão que ele tinha e a família necessitava dos rendimentos dele, e coisa e tal. Mas meu pai disse que iria conversar com o Presidente da Novacap, e solicitaria uma nova função para ele, sem perda da remuneração de piloto. E assim foi feito. Menos vítimas em potencial. De resto, ficamos eu e minhas irmãs com essa história que agora lhes repasso, ainda com um dedinho de pavor, medo, angústia e outras coisas que naquele momento de horror a gente fala, faz e pensa.